#16. Édouard Louis
Dudu para os íntimos
Desde a sua gênese no século XVIII, o romance se consolidou como o gênero literário mais democrático e plástico, capaz de absorver e reinventar-se diante das transformações sociais. Surgiu no setecentos como um guia didático de comportamento para as novas classes em ascensão, com obras como La Nouvelle Héloïse (1761), de Rousseau, que mesclava lições morais e sentimentalismo, ou Les Liaisons dangereuses (1782), de Choderlos de Laclos, que expunha as hipocrisias da aristocracia francesa. Nos oitocentos, tornou-se o totem de uma burguesia em ascensão, com Balzac retratando em La Comédie humaine as ambições e contradições dessa nova classe, enquanto Flaubert, em Madame Bovary (1857), criticava seus vícios e ilusões.
Ao adentrar o século XX, o romance francês libertou-se de amarras fixas, sendo moldado a bel-prazer por vanguardas e crises históricas. Proust em À la recherche du temps perdu (1913-1927), revolucionou a percepção do tempo narrativo, enquanto Céline em Voyage au bout de la nuit (1932), mergulhou no niilismo após a primeira Guerra. O existencialismo de Sartre em La Nausée, 1938 e a escrita feminista de Simone de Beauvoir em Les Mandarins, 1954, expandiram os limites temáticos do gênero.
Apesar de sua capacidade de metamorfose, o caráter doméstico nunca abandonou o romance. O microcosmo da vida cotidiana, desde os conflitos familiares em Thérèse Desqueyroux (1927) de Mauriac, até as crises identitárias em O lugar (1983), de Annie Ernaux, permanece como um eixo central. Hoje, o gênero na França mantém sua vitalidade, seja nas reflexões pós-coloniais de Leïla Slimani em Chanson douce, 2016, seja no experimentalismo de Édouard Louis Qui a tué mon père, 2018. Esse último se tornou um fenômeno de vendas na França e no Brasil, e tive o prazer de ouvi-lo ao vivo na FLIP de 2024, que junto a edição de 2022, talvez tenha sido a mais interessante dos últimos cinco ou seis anos.
O texto abaixo foi originalmente escrito em novembro de 2024 e é a primeira vez que é publicado.
Habitus
Para entendermos a obra de Édouard Louis de maneira crítica, indo além do conteúdo manifesto de suas narrativas, é essencial analisar as estruturas sociais e geográficas que moldam a realidade retratada em seus livros. Isso exige um aprofundamento na divisão de classes na França e sobretudo na relação entre a organização territorial do país e suas desigualdades econômicas.
Louis nasceu em Hallencourt, um pequeno município no norte da França, região historicamente marcada pela industrialização, pelo declínio econômico e pelo abandono político. Essa área, conhecida como Haute-France ou simplesmente le Nord, foi no passado um polo importante da indústria têxtil e mineira que nas últimas décadas sofreu com a desindustrialização e o desemprego em massa. Essa realidade socioeconômica influencia diretamente as experiências dos personagens em seus romances, como História da Violência, onde a pobreza, a exclusão e a violência são temas centrais.
A França possui uma divisão geográfica profundamente ligada à sua estratificação social. Enquanto Paris e outras grandes metrópoles concentram riqueza, poder político e capital cultural, as regiões periféricas — especialmente o norte e partes do leste — enfrentam o estigma de serem territórios esquecidos, associados à classe trabalhadora empobrecida e aos imigrantes marginalizados. Essa dicotomia entre centro e periferia reflete-se na literatura de Louis, que explora como a origem geográfica determina trajetórias de vida, oportunidades e até mesmo a percepção de si mesmo no mundo.
Além disso, a divisão de classes na França não se resume apenas à economia, mas também a questões de capital cultural; o autor, ao migrar de sua cidade natal para Paris e adentrar espaços intelectuais, vive na pele o conflito de habitus, o choque entre os valores de sua família proletária e as exigências da elite acadêmica e artística. Sua escrita não é apenas autobiográfica, é um instrumento de denúncia das mecânicas de dominação de classe, mostrando como a violência social se reproduz tanto no espaço urbano quanto no rural — aqui novamente uma temática persistente no romance enquanto gênero, e que pode ser aprofundada com a leitura de Raymond Williams em O campo e a cidade, que mencionei na newsletter sobre as grandes fortunas na literatura.
A obra de Louis só pode ser plenamente compreendida quando situada nesse duplo contexto: o espaço geográfico marginalizado que o formou e as rígidas estruturas de classe francesas que condenam indivíduos como seus personagens a uma luta constante por reconhecimento e sobrevivência. A sociedade francesa, com sua hierarquia cultural profundamente enraizada e seu elitismo institucionalizado, impõe barreiras quase intransponíveis à mobilidade social, tornando a ascensão de escritores oriundos das periferias um ato de transgressão em si mesmo.
Por mais que caiamos na tentação de traçar paralelos com autores brasileiros que tenham ascendido de classe ou hackeado o sistema por meio de estratégias criativas, a realidade socioliterária de Louis é singular. No Brasil, a divisão e a estratificação social, embora brutais, operam de maneira mais fluida e menos codificada do que na França. Nossa classe média amplamente heterogênea desfruta de certos privilégios que se intersectam com os das elites, como acesso a educação privada, consumo cultural, redes de influência e, ao mesmo tempo, compartilha vulnerabilidades com as classes mais baixas, como a instabilidade econômica, violência urbana, precariedade dos serviços públicos. Essa ambiguidade de fronteiras faz com que a mobilidade social, ainda que difícil, não seja tão rigidamente cerceada por códigos culturais e acadêmicos intransigentes.
Além disso, ascender como escritor em Paris implica enfrentar um campo literário altamente centralizado, onde o reconhecimento passa necessariamente por uma validação das instituições dominantes: grandes editoras, premiações consagradas, suplementos literários de prestígio. Na França, a tradição do capital cultural pode ser uma moeda mais valiosa que o financeiro, e adquiri-lo exige a assimilação de códigos muitas vezes inacessíveis a quem vem de origens marginalizadas. Já nas capitais brasileiras, embora existam circuitos literários elitizados, a proliferação de alternativas, como editoras independentes, coletivos periféricos, redes sociais, festivais descentralizados, permite que a ascensão — mesmo que difícil — de um escritor ocorra por vias menos ortodoxas, sem a mesma dependência de um establishment cultural monolítico.
Louis escreve a partir de uma experiência radicalmente marcada pela segregação espacial e pela exclusão cultural, elementos que no contexto brasileiro se manifestam de forma distinta. Enquanto aqui a periferia muitas vezes se afirma como polo de produção cultural autônoma, na França os banlieues são vistos como territórios de carência simbólica, cujas vozes só ganham ressonância quando mediadas pelo centro. Essa diferença fundamental faz com que mesmo os autores brasileiros que narram trajetórias de marginalidade enfrentem desafios distintos em sua busca por legitimidade. A obra de Louis reflete sua condição singular e explicita as contradições de um sistema literário que mesmo quando abre suas portas a outsiders, o faz sob condições que muitas vezes reforçam as mesmas hierarquias que pretendem desafiar. E é por tudo isso até aqui exposto que o romance horroroso, fubango e desonesto da Tati Bernardi que resenhei na newsletter #03 merece a fogueira, e não as prateleiras das livrarias, quiçá as prateleiras dos mesmos leitores de Louis e Ernaux.
O nascimento de Edouard
Embora evocar o nome morto de alguém que escolheu enterrá-lo, no caso, Eddy Bellegueule, nome de registro do escritor francês Edouard Louis — possa ser entendido como uma violência, sua menção aqui se justifica pelo papel central que essa identidade abandonada desempenha na origem de sua literatura. Louis, ao romper com sua família e seu passado de pobreza e violência na região norte da França, rebatizou-se como forma de reinvenção, mas sua obra, especialmente En finir avec Eddy Bellegueule (2014), gira em torno das marcas deixadas por esse nome e pelo que ele representava.
O nome Eddy, por sua vez, carrega uma carga peculiar; no Brasil, o humorístico Porta dos Fundos certa vez satirizou em um vídeo viral a tendência de nomes que soam como importações mal digeridas da cultura pop anglófona, batizando-os de nomes Dolly, em alusão à marca de refrigerantes que é visto como uma alternativa barata. Essa crítica, reflete um preconceito social real, já que nomes como Jonatas, Wemerson, Emilyn ou Kevin são frequentemente associados a classes populares, como se fossem tentativas fracassadas de emular um cosmopolitismo distante da realidade local; são marcadores de classe, sinais de uma identidade cultural que muitas vezes é lida como forçada ou inautêntica pelas elites.
Esse fenômeno não é exclusividade brasileira. Na Alemanha, o nome Kevin se tornou emblemático de um estereótipo negativo, o Kevinismus, associado a famílias pobres e supostamente pouco instruídas que adotam nomes anglófonos sem tradição local. Embora não seja formalmente proibido, há casos judiciais de pais obrigados a mudar o nome do filho por suposta exposição ao ridículo. Em Portugal, a legislação é ainda mais dura, nomes estrangeiros não adaptados ao português são vetados, salvo se um dos pais for estrangeiro. Assim, um Kevin ou Jennifer pode ser recusado no registro civil.
A rejeição a esses nomes revela uma ansiedade cultural, o medo de que a influência anglófona apague identidades locais e expõe ainda um classismo não tão velado, que trata certas escolhas onomásticas como sintomas de mau gosto ou falta de educação.
Monique
Embora eu tenha lido toda a sua bibliografia, é natural que tenha os meus preferidos, assim como aqueles que comecei e acabei abandonando. Mudar: Método, por exemplo, honestamente, é o mais enfadonho de todos os romances de Édouard Louis publicados no Brasil pela Todavia. No entanto, História da Violência e Quem Matou Meu Pai são obras impactantes que mergulham nas complexidades da violência estrutural, da homofobia e das desigualdades de classe, temas recorrentes em sua escrita.
Dentre seus livros, Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique Se Liberta se destacam como romances fantásticos, narrando a jornada de libertação de Monique, mãe do autor, das amarras da violência doméstica e da opressão. Essas obras narram como a violência contra a mulher, embora não seja exclusiva das classes mais baixas, se manifesta de maneira mais explícita e brutal na pobreza, onde as estruturas de vulnerabilidade são ainda mais cruéis. Monique, como personagem, encarna a resistência e a transformação, lutando contra um sistema que a oprime tanto por ser mulher quanto por sua condição social. A narrativa de Louis expõe as feridas familiares e as conecta a um contexto social mais amplo, revelando como a miséria econômica intensifica todas as outras formas de violência.
A escrita de Louis em especial nestes dois romances é sempre engajada, equilibrando memória, denúncia social e uma narrativa pulsante. Em julho deste ano, a editora Todavia publicou O Desabamento, obra em que o escritor Louis relata os acontecimentos em torno da morte prematura de seu irmão, aos 38 anos. Tive acesso à amostra disponível no Kindle, e confesso que o texto não despertou meu interesse.
Refletindo sobre a recepção potencial dessa obra, é possível imaginar que em outros contextos sociais, Louis poderia ser acusado de oportunismo por transformar a tragédia familiar em matéria-prima para best-sellers literários. Compreendo até certo ponto a validade dessa crítica, há sempre um risco ético ao se monetizar a dor íntima. No entanto, considerando que a trajetória de vida do autor já é pública, enxergo sua escrita como um ato complexo de ressignificação. Escrever em seu caso é reescrever a própria história, revisitá-la para para inscrever no papel a existência de uma família comum, pobre quase miserável, aquela que jamais constaria nos registros oficiais de uma nação como a França, com sua historiografia tradicionalmente voltada para os grandes feitos.
Louis confere existência literária e memória cultural a sujeitos que a sociedade normalmente apaga. Seu projeto narrativo me parece menos sobre explorar a tragédia e mais sobre resistir ao apagamento das histórias marginalizadas, usando as únicas ferramentas que tem à disposição, a escrita e sua própria biografia como matéria-prima. Ainda assim, permanece a pulguinha atrás da minha orelha, questionando até que ponto a literatura pode ser um espaço de autoficção terapêutica, e onde começa a espetacularização da dor. Até onde li, O Desabamento parece navegar justamente nessa fronteira delicada.
O desconforto que conforta
Algo que aprendi ao longo dos meus vinte anos estudando literatura é que nenhum texto literário, independente do gênero, e principalmente o romance, se sustenta se não for um fragmento social. Não precisa ser explícito, não precisa ser panfletário; os grandes romances, especialmente na contemporaneidade, são aqueles que conseguem fazer com que o individual se torne coletivo sem cair num identitarismo que seja facilmente consumido e assimilado. É comum que muitos dos meus alunos, na faixa dos 20 aos 25 anos, rejeitem ser confrontados ou experimentar o desconforto provocado pela leitura de um romance. Infelizmente, as pautas identitárias são frequentemente sequestradas por um discurso liberal que proclama tudo pode ser, todos podem ter — como se isso não fosse, no máximo, uma fantasia de letra de Lua de Cristal da Xuxa. Assim, quando um leitor acostumado a romances edulcorados da cultura de massa, que oferecem existências oníricas em mundos cor-de-rosa, depara-se com a crueza e a beleza da literatura que deveria provocar desconforto, justamente a força motriz da arte, o choque é inevitável. Lembro-me de um aluno da turma de 2019 que afirmou não ter gostado de Crime e Castigo porque não se identificou em nada com Raskólnikov. Sem pensar, soltei uma gargalhada e respondi, menos mal, seus colegas e eu agradecemos por você não se ver num assassino russo atormentado dos oitocentos! Ele não entendeu e reprovou meu tom. Paciência, esse humor supostamente cáustico também é um subproduto de anos de leituras que me desarrumaram e é assim que a literatura nos move.
Grandes romances carregam sempre em si continuidade e ruptura; continuam uma tradição para em seguida subvertê-la; prolongam uma veia estética apenas para desconstruí-la nas páginas finais; enaltecem tradições culturais e nacionais na superfície, e as corroem no conteúdo latente. E assim seguem, em um diálogo tenso com o cânone mas sem dissidência total.
Edouard Louis, embora jovem, é grande por escrever sobre o seu corpo, que poderia ser o de qualquer homem jovem, gay e francês marginalizado, privado de voz e de acesso a espaços onde suas demandas sejam ouvidas. Sua escrita transforma a experiência íntima em denúncia política sem perder a potência literária. É raro que um fenômeno literário seja esteticamente relevante, mas felizmente isso acontece. Louis iniciou sua carreira muito cedo e sua obra, agora na casa dos trinta, amadureceu, tornou-se mais densa, mais experimental e mais consciente de seu lugar na tradição. Espero que sua trajetória continue ascendente, porque ele compreendeu algo essencial, que seu corpo e sua família estão em constante metamorfose, assim como o tecido social que os cerca.
Seus romances mantêm um núcleo doméstico que ecoam em leitores de realidades distintas, pessoas que mesmo à distância - como é o meu caso, em partes - reconhecem nas páginas alguém que viveu violências semelhantes às que ele narra. É essa generosidade do particular, essa capacidade de fazer da dor pessoal um espelho coletivo, que consolida Louis como um dos nomes mais necessários da literatura contemporânea, sua obra prova que quando a escrita é ferida aberta e linguagem reinventada, o singular pode de fato tornar-se plural.
Em tempo: As inscrições para o meu curso de leitura crítica estão abertas. O curso tem início dia 28 de julho e terá vagas limitadas. Por ser um curso de caráter experimental, terá valor reduzido. Os quatro encontros custam R$281,60 com pagamento via PIX até o dia 28/07, início das aulas. Mais informações no Formulário Google abaixo.
Turma A. Segunda-feira, das 19h00-20h30.
Turma B. Segunda-feira, das 20h30-22h00.

