#41. Uma vida pequena
De qualidade literária minúscula.
A marcante imagem de capa do livro, uma fotografia do falecido Peter Hujar de um homem fazendo uma careta que parece ser de agonia pertence a uma série de imagens que Hujar, que era gay, fez de homens no auge do orgasmo. E aqui começa a sequência de mau gosto que permeia o romance de 2015. O romance foi o meu primeiro contato com uma obra que pode ser classificada como pornografia de sofrimento.
Ao conhecermos Jude, ele ainda é um jovem, e somos apresentados a ele por intermédio de um assistente social que lhe assegura que a porção mais miserável de sua existência ficou para trás, que lhe é possível abandonar todo o passado e recomeçar. O cerne da narrativa, evidentemente, reside na impossibilidade de tal recomeço; a infância de Jude é tão atroz, tão repleta de todo tipo de abusos, que dele resultam danos físicos e psíquicos irreparáveis. Tal premissa converte a leitura numa experiência frustrante, na medida em que imobiliza as personagens, sobretudo o próprio Jude. Ele pratica automutilação, tenta o suicídio, sofre ataques de dor intensa que o deixam inconsciente, recusa auxílio e tem seu passado constantemente escavado por novos episódios. E assim a narrativa se desenrola, numa sucessão exaustiva e reiterada.
O texto de Hanya Yanigahara é escrito sem um plano definido, tendo inicialmente a intenção de compor um romance sobre quatro amigos universitários em sua travessia pela vida adulta, mas logo deslocando seu interesse quase exclusivo para uma única figura, em detrimento das demais, que recebem tratamento secundário e superficial, sem muito desenvolvimento de personagem. Os sucessos dos amigos são sonhos absurdos de adolescentes americanos; há um breve enredo paralelo acerca do vício emergente de JB em metanfetamina, resolvido num jantar na casa de sua mãe e uma severa admoestação, como se a metanfetamina fosse notoriamente uma droga de abstinência simples. Willem, entre os coadjuvantes, é o que recebe maior atenção, mas apenas na medida em que sua relação com Jude avança.
É inegável que a prosa possui beleza e que as dinâmicas entre as personagens são exploradas com certo requinte, mas as próprias figuras carecem de densidade psicológica. A narrativa padece ainda de repetição excessiva: todo homem que Jude encontra na infância revela-se um predador sexual. Embora tais indivíduos existam, a frequência com que surgem na trama beira o inverossímil. A realidade pode superar a ficção, mas, para que a ficção supere a realidade, faz-se necessário conferir-lhe plausibilidade: Jude é um advogado de êxito notável, mas parece improvável que alguém acometido por tantas aflições físicas e mentais possa tornar-se, essencialmente, o mais bem-sucedido profissional de sua área. Malcolm e Willem, ambos bem-sucedidos em suas carreiras após alguns percalços iniciais, abandonam tudo para acudir Jude sempre que a situação o exige. A amizade entre eles tampouco aparenta ser recíproca; Jude é amável, mas é legítimo indagar o que os demais extraem dessa relação, não há aprofundamento crítico da voz narrativa nestes pequenos desgastes do romance.
Sex and the city? Uma história secreta?
Outro ponto que me pegou durante a leitura de Uma Vida Pequena é que Hanya Yanagihara provavelmente pensou: e se eu escrevesse Sex and the City, mas com homens gays que mais se parecem com os ferrados de Grey’s Anatomy e as vítimas de Law & Order: SVU? Porque é exatamente essa análise combinatória que vem à minha cabeça. E, não coincidentemente, no meu círculo de amigos, os elogiosos a Uma Vida Pequena são também entusiastas de séries de TV no estilo das mencionadas, como se houvesse um continuum estético entre o melodrama televisivo e a literatura de prestígio duvidoso, onde o sofrimento extremo é elevado à categoria de “arte”.
Essa operação narrativa dialoga com um movimento mais amplo na cultura literária contemporânea nos EUA: a romantização do sofrimento e da vulnerabilidade como espetáculo. A dark academia de Donna Tartt, especialmente no decente A História Secreta (1992), considerado o texto fundador do gênero na contemporaneidade, deu origem a uma estética que mistura melancolia, mistério e vida intelectual com tons góticos e uma atmosfera de fatalidade inevitável. O termo dark academia em si só surgiria anos depois, em 2015, em uma discussão online sobre o livro de Tartt, consolidando-se como um fenômeno cultural que transcende a literatura e invade moda, decoração, cinema e redes sociais. Dessa matriz, ainda que indiretamente, emerge também o dark romance, que tem em Colleen Hoover uma de suas expoentes mais populares, ainda que muitas de suas obras, como É Assim que Acaba e Verity, sejam mais propriamente classificadas como romance contemporâneo ou suspense romântico do que como dark romance puro, gênero que tem autoras como Pepper Winters e Penelope Douglas como referências mais diretas e explícitas; a influência atmosférica é inegável: ambas operam na chave de uma estética sombria que transforma dor em espetáculo, que faz do trauma um ingrediente narrativo central e que convida o leitor a um voyeurismo emocional, olhar para o sofrimento alheio com uma mistura de fascínio, compaixão e, por que não, excitação.
Geralmente escritas por mulheres, narrativas como Uma Vida Pequena e os romances de Hoover podem ser lidas como uma fantasia de vulnerabilidade, motivada pelo fetiche BDSM e/ou pelo impulso de romper as fachadas da masculinidade para ver a dor e a fraqueza operando em um corpo socialmente dominante: e se homens sofressem com abuso, estupro e demais mazelas que acometem mulheres? É uma tentativa de transferir para corpos masculinos, especialmente corpos gays aqui, o peso de uma violência historicamente feminina, como se a dor só adquirisse legitimidade narrativa quando encarnada em quem normalmente é visto como privilegiado. Há nesse movimento uma inversão curiosa: o corpo gay, historicamente marginalizado, torna-se o palco privilegiado para uma fantasia de fragilidade masculina que a cultura heterossexual não permite que homens cis expressem abertamente. É como se, ao vestir a dor em corpos gays, a narrativa pudesse escapar da ameaça que a masculinidade frágil representa, porque, afinal, homens gays já estão no imaginário social fora da masculinidade hegemônica, e por isso podem ser frágeis sem que isso represente uma crise ontológica para o sistema. Mas adivinhem só: homens gays não precisam ser corpos-veículos para que mulheres cis heterossexuais vejam neles a dor que sofrem diariamente, porque nós temos a nossa própria gramática de dor, nossas peculiaridades com a violência. A experiência gay carrega violências específicas, profundamente enraizadas em estruturas de poder que não se resumem à opressão de gênero: homofobia internalizada, que corrói a autoestima desde a infância; ostracismo familiar, que muitas vezes transforma o lar em um espaço de rejeição e violência; violência policial e estatal, que trata corpos gays como suspeitos ou descartáveis; o trauma histórico e coletivo da epidemia de HIV/AIDS, que dizimou uma geração inteira e deixou cicatrizes que ainda não cicatrizaram; a violência sexual dentro da própria comunidade, que raramente é nomeada ou discutida; e a solidão estrutural de uma vida marcada pela diferença, que muitas vezes é vivida no silêncio e no segredo. Essas dores são frequentemente apagadas em narrativas como a de Yanagihara, que usa o sofrimento gay como metáfora para uma fragilidade masculina abstrata, beirando o que alguns críticos chamam de trauma porn sem compromisso com a complexidade política, social e histórica que o gera - elementos não coincidentemente sublimados de seu romance.
Qualquer um que tenha lido A História da Violência (2016), de Édouard Louis, romance autobiográfico que narra como se deu o estupro e o espancamento que ele sofreu em Paris ao se mudar para a cidade, vai juntar lé com cré no ponto que quero amarrar aqui; Louis escreve um testemunho, porque é o que o gênero autoficcional comporta. Sua dor não é um dispositivo estético para explorar a fragilidade masculina, é uma dissecção crua das estruturas sociais, como classe e sexualidade, que tornaram aquela violência possível e que a silenciam. Em Louis, a violência é política; em Yanagihara, a violência é existencial, quase metafísica. Enquanto Louis nos obriga a olhar para o mundo que produz a violência, Yanagihara nos convida a mergulhar na intimidade do sofrimento como quem assiste a um filme de terror. É a encarnação da gramática de dor específica da experiência gay que falta em Uma Vida Pequena e em tantas outras narrativas que transformam corpos gays em veículos para a fantasia alheia, seja a fantasia de fragilidade masculina, seja a fantasia de redenção pelo sofrimento, seja a fantasia de que a dor pode ser bela quando contada por quem nunca a viveu.
Voltando, em A História Secreta é bem provável que Donna Tartt tenha bebido da mesma fonte que Patricia Highsmith na construção de suas narrativas em torno do personagem Tom Ripley, além do tom psicológico e na tensão moral, a forma como o crime e a identidade se entrelaçam com o deslocamento social e a performance de si são similares. Felizmente, escritores bebem da fonte de bons escritores, e Tartt faz isso com a sofisticação, recria o campus de Hampden College, com seu isolamento bucólico e sua elite intelectual decadente, ecoa o universo claustrofóbico e amoral que Highsmith tão bem soube construir, ainda que Tartt o transponha para o território mais explicitamente literário e trágico dos clássicos gregos. Esse diálogo intertextual, no entanto, não se esgota em Highsmith. Consigo pensar também em Maurice (1971), de E. M. Forster, em que o espaço acadêmico funciona como um microcosmo de repressões e desejos, onde o saber e o corpo entram em conflito. E embora seja pouco provável que Tartt tenha lido Raul Pompeia, O Ateneu (1888) sempre será um grande romance que traz o confinamento de um espaço educacional como elemento estruturante da narrativa, em que a arquitetura e o regime disciplinar moldam a psique dos personagens e antecipam suas quedas. Esse motivo do espaço fechado como laboratório ético e estético ressurge em outras geografias e épocas, como se vê em Bençãos (2025), de Chukwuebuka Ibeh, romance nigeriano que, embora muito distante no tempo e no contexto, também explora o confinamento, aqui, o de um jovem em uma sociedade repressora, como motor de transformação interna e de revelação de segredos.
Novamente, a forma
É possível gostar da história que se conta aqui, cada um com a sua vida ruim, mas Uma vida pequena é literariamente pobre; problemas gramaticais constituem o romance quase que em sua totalidade:
his mother…had earned her doctorate in education, teaching all the while at the public school near their house that she had deemed JB better than (A little life, Hanya Yanagihara).
No trecho acima dois problemas graves, o primeiro sendo a confusão criada por all the while quando while bastaria; a confusão permanece e poderia ser evitada se during ou throughout fossem empregadas, e ainda assim não saberíamos o que a escritora pretendia com a construção, já que fazer um doutorado é um processo que termina, enquanto dar aula é um trabalho que continua a depender do seu vínculo de trabalho. Se ela deu aula na escola por vinte anos, mas só passou cinco desses anos fazendo o doutorado, então as duas coisas não aconteceram ao mesmo tempo durante todo esse período. O segundo problema, o emprego do verbo deem, e por aí vai. Exemplos de problemas gramaticais e de prosa poética rasa não faltam, e mesmo assim o romance ganhou o coração da crítica em prêmios e listas de melhores do ano de 2015. O tema, superficialmente, sensibiliza.
Yanagihara certamente sabia que o mar de sofrimento que despeja em suas páginas correria o risco de naufragar com boa parte de seus leitores. Em seu romance anterior, o até que decente The People in the Trees (2013), já havia ali um presságio: o médico-protagonista, ao estudar a cultura de uma ilha remota, revela um desejo infantil perturbador, o de ter tido uma infância mais trágica, onde até um irmão aleijado servisse como elo familiar; também aqui, a temática do abuso sexual infantil praticado contra meninos é a trama principal. Gata? Terapia?
Sabemos que o abuso tende a gerar ciclos viciosos de autodestruição, e retratá-los com honestidade é um passo corajoso. Mas apenas mostrá-los, sem onisciência crítica ou perspectiva transformadora, é reduzir a literatura a um espelho passivo de infelicidade. O que Yanagihara nos entrega, por vezes, soa menos como um romance cuidadosamente tecido e mais como uma tentativa de relato ficcionalizado sem refinamento estético, um documentário emocional que explora a dor como conteúdo, quase como um canal de YouTube faminto por views. É volumoso em páginas, mas é de fato um romance pequeno.
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Adorei tua análise, Igor! Há uns meses a capa desse livro não sumia da minha timeline e até pensei em dar uma chance, mas folheando ele na livraria percebi que seria frustrante. Sobre O Ateneu: a obra é uma perfeita demonstração de tudo que tu debateu aqui. Até hoje lembro fisicamente daquela escola interna macabra, do autoritarismo (que eu sentia na época ao estudar em uma instituição militar) e por aí vai. É muito diferente quando existe apreço, cuidado e respeito pela construção de uma história. Enquanto alguns escritores se tornaram grandiosos com uma centena de páginas, outros precisam de setecentos pra construir um romance de wattpad. Nada contra a plataforma, mas tudo me parece um porno masoquista e sem fundamento algum.
Abraço!
[Editando aqui pra não deixar de indicar Uma tragédia latino-sertaneja, do Fellipe Fernandes. Adoraria saber tua análise!]
Meu amigo, obrigado por esse texto. A raiva que me fez Uma Vida Pequena não foi pouca, sobretudo porque enganado pelo início relativamente promissor.