#Bônus. Baldwin
Um exercício de amor e felicidade
#01
Ontem depois do café da manhã, enquanto passeávamos pelo bairro e falávamos sobre como, para James Baldwin, o amor nunca foi um movimento popular — mas sim uma necessidade visceral, ancorada também na raiva e no desejo de pertencer, ocorreu-me que a felicidade poderia ser entendida de maneira semelhante. Minha conclusão, até o dia de hoje, é que a felicidade é um exercício, e diria que muscular.
Assim como é a escrita, como é andar de bicicleta. Não é algo que simplesmente nos acontece; é uma prática que exige esforço, repetição e disciplina. É um movimento ativo contra a inércia, contra o que chamo de sedentarismo afetivo, aquela tentação de nos acomodarmos em espaços emocionais estreitos, onde o desconforto é familiar e paradoxalmente confortável.
Ele, com sua presença, faz com que esse exercício da felicidade dê uma surra* em qualquer possibilidade de letargia emocional que eu possa, em momentos de fraqueza, considerar como refúgio. Não há nada nele que não esteja no devido lugar e essa harmonia, essa precisão de existência, funciona como um lembrete diário de que a felicidade é uma escolha cultivada. Se o amor para Baldwin era uma luta, a felicidade exige que nos mantenhamos em movimento, pedalando, escrevendo, em repetição até a exaustão passar de dolorosa; De novo, de novo, de novo.
*dar uma surra em inglês pode ser traduzido como trounce, que denotativamente é trucidar e aprendi no fim de semana nas palavradas-cruzadas do NYTimes.
#02
Ele não é loiro, não possui olhos claros, muito menos um amante latino e está longe de pertencer a qualquer imaginário coletivo de homem ideal e isso me enche. Foi difícil entender que o homem convencionalmente bonito não me atrai, e mais difícil ainda foi fazer meus pares, amigos e até outros amantes acreditarem que Apólo e Hércules não me chamam a atenção, ou se chamam, meu olhar escorrega rápido.
Me sinto mais inteligente ao seu lado — não por Ele ser burro ou incapaz, muito pelo contrário, sua curiosidade genuína me arrasta para dentro de livros, me obriga a estudar mais, produzir mais, escrever mais; Ele me pega desprevenido na mesa do café, do almoço, do jantar, com perguntas que me fazem mastigar ideias até sobrar só os meus ossos.
Com Ele a minha risada não é contida. Deixo escapar fungadinhos, que em outras companhias disfarço com uma versão mais polida, mais adequada às regras de etiqueta que senhoras de uma elite moribunda ainda insistem em ensinar por aí. Ele ri de volta, e às vezes uma cuspidinha de Coca-Cola, água ou café pula de seus lábios em êxtase. Aí gargalhamos juntos, dois idiotas em sincronia.
Nem sempre Ele é alegre, e quem o é o tempo todo não me encanta. A melancolia tem seu charme, Ele sabe disso. Quando adoece, eu me preocupo; quando está bem, fico tranquilo; cai na cama, porque adoecer é inevitável quando se está vivo, eu apareço. Estou livre às quintas-feiras após o almoço e sempre que posso dou uma passada para ver como ele está. Eu me cuido. Eu finjo acreditar.
Ciclobenzaprina; orfenadrina; carisoprodol; carbamazepina; lamotrigina; baclofeno; tizanidina.
Ando pelo seu apartamento; Ele anda relendo Baldwin.Uma vez por ano, no mínimo. Anos depois, ele não quer que eu apareça quando está doente. Digo que continuarei aparecendo, a menos que ele troque a fechadura. Ele nunca trocará; às vezes não vou; Ele me liga, Por que não veio? É nosso jogo de gato e rato, um ritual que nos deixa ansiosos pelo próximo encontro.
Chego ao seu apartamento e ouço o chuveiro ligado. Pego Terra Estranha da mesa de jantar e mergulho até à metade. O chuveiro ainda corre e me assusto, afinal são quase quinhentas páginas e a minha vista não anda lá essas coisas. Bato na porta, nada; Ele insiste em trancar a porta do banheiro. Pare de bobagem, eu já sei como você é nu. Ele tem vergonha e não deveria, nada nele está fora do lugar; ele não é Apolo, não é Giovanni, mas é.
Ele está catatônico olhando a água quente cair em vapores brancos e turvos. O vizinho que chamei do corredor ajuda a arrombar a porta; Ele finge não me reconhecer. Pede que o vizinho saia. Se seca. Diz que não se lembra de nada até minutos antes do banho e agora dorme vestido a com minha ajuda. Em muitos anos, precisamente duas décadas, quatro meses, vinte dias e três horas, se esquecerá que me ama. Até lá, como última concessão à sua autonomia rarefeita, permito que tranque a porta do banheiro desde que eu esteja no apartamento — Ele não percebe que agora moramos juntos; Ele assente contrariado, com uma piada autodepreciativa que me fará soltar um fungadinho daqueles. No futuro, ele se lembrará de mim apenas por segundos.
Somos felizes.

