#Bônus. Daddy issues
Cinco notas sobre o meu não-paternar.
Algo que aprendi ao longo dos meus relacionamentos dignos de lembrança é a odiar a responsabilidade que involuntariamente me dão sobre o outro; conferir se o namorado tirou a roupa da máquina de lavar, se lembrou de descer o lixo, se pagou a conta de luz, ou ainda se está tomando os remédios que precisa tomar durante uma infecção de urina. Por mais que o entorno diga, é só não se preocupar, na prática a coisa é diferente; ver o homem que você ama se foder por negligência própria é agonizante, e quando você se dá conta, começa a ser negligente consigo para que o outro chegue com fôlego na corrida de São Silvestre, que sempre fora o sonho dele, mas quem fez a inscrição foi você. A esse papel eu não me presto mais, oras, se eu escolhi não ter pet e nem ter filho, por qual motivo eu cuidaria do outro como se ele fosse dependente? Ao menor sinal de homem-moleque eu saio pra comprar cigarro e do táxi o excluo da minha agenda de telefones.
Aos que sentem demais e acham que todo encontro amoroso e sexual precisa de um grande gesto, sinto muito, sou a favor de chá de sumiço, o famoso ghosting; três encontros, dois medianos, um ruim, ele cheirava mal, não sei… virilha azeda, sem asseio sabendo que me encontraria ao final do dia. Eu realmente preciso dessa DR? Tenho alguns amigos que vivem pedindo pra conversar com ficante; conversas longas, intermináveis, mentiras inventadas e pautadas em filosofia barata de autoajuda, reforçadas pela sabedoria de Ana Suy para dispensar um cara que tem mau hálito. Menos. Achar que você é bom o bastante para mudar a vida de um interesse amoroso com dicas valiosas é de uma condescendência absurda e vejo mais amigas heterossexuais fazendo isso que meus amigos homens gays; por favor, parem. Seu amor não vai mudar esse homem, quem você honestamente pensa que é? Seus corpos não são casa de acolhimento e muito menos instituição de ressocialização; bem, pelo menos o meu não é. Procurem por pares, lembrem-se de Jane Austen. Pares de verdade.
Na minha última tentativa de me relacionar, o motivo maior da minha frustração foi ter ouvido do meu possível pretendente que se ele não tivesse namorado um cara mais velho quando ele tinha vinte e poucos, ele não teria ascendido socialmente, nem na carreira e nem poderia ter tido oportunidades, uma dessas que inclusive fez com que nós nos conhecêssemos. Questionei se ele mantinha contato com esse ex-namorado, que além de pai foi patrocinador de seus estudos e moradia, depois da formatura não via mais sentido em manter o relacionamento; assim, na cara dura, como quem conta o que comeu no café da manhã inusitado em uma viagem ao Vietnã. Alguns segredos precisam ser guardados e revelados aos poucos, pois quem sabe se nosso relacionamento tivesse engatado e em um dia chuvoso e frio, ele depressivo se sentisse arrependido de ter abandonado o namorado-pai e me confessasse tudo ali chorando no meu colo, perguntando se eu o amo menos por isso; até aquele momento hipotético pode ser que eu o amasse o bastante para que esse detalhe de seu passado não fosse definidor de seu caráter, mas no quarto, quinto encontro? Tenha a santa paciência.
Sou um homem gay de quase quarenta anos que nasceu e cresceu com pai presente e ainda muito vivo; até demais. Meu pai é um adulto que entende que eu posso ficar horas em silêncio ao lado de uma pessoa amada sem que haja nada de errado. Foi pai aos trinta e oito, quase trinta e nove, idade que tenho hoje; ele, ao contrário de mim, sempre quis ser pai. Meu avô, um homem palestino, filho de um grego e uma portuguesa (pois é), chegou ao Brasil em 1948 e teve meu pai, sete anos depois de ter sua penúltima filha, fazendo com que meu pai seja levemente temporão. Sendo o único filho homem e o caçula, é mais rápido imaginar que ele teria sido o filho favorito ou o filho mimado, mas não; além do meu avô trabalhar bastante, engenheiro civil, minha avó morreu de câncer de ovário aos trinta e oito, uma idade emblemática aparentemente, quando meu pai contava dois anos. Não é preciso recorrer à famosa psicanalise selvagem para entender a paternidade afetuosa, generosa, e presente do meu pai, que há três anos pegou um avião às pressas para vir ao meu encontro sem que eu pedisse quando soube que estava internado com uma infecção intestinal grave por contaminação cruzada. Ele sabe quem foi a minha professora de história na oitava série e conhece os motivos que fizeram com que eu desistisse da faculdade de comunicação e fosse pras letras; lê todos os meus manuscritos, inclusive aqueles em que descrevo os pormenores das minhas desavenças sexuais com outros homens; esse aqui mereceu, disse ele quando leu que quase coloquei chifre num namorado chato do passado, mas você não faria isso, escreva um personagem que sim, daí você se vinga no papel, ele emendou. Se nos moldamos para o olhar do outro considerando o amor que vimos e recebemos em casa, talvez isso explique porque quase todo homem me parece insuficiente. Os mais simplórios de alma chamarão isso de daddy issues, eu chamo de barra agressivamente alta.
Encontros sexuais semi-anônimos me são mais interessantes ultimamente. Sabendo o nome e número de telefone já está ótimo. Coloco os dados no Jusbrasil, vejo se está tudo nos conformes, tomamos um drink, se e não sinto nenhum cheiro esquisito quando me aproximo para ouvi-lo mais de perto, estou no lucro. Aqui o buraquinho da peneira não precisa ser muito estreito, mas também não achei meu rabo no lixo. Me lembro de uma amiga na faculdade que certa vez num bar se atracou aos beijos sem pudor na mesa de sinuca com um careca de camiseta cavada e tatuagens esverdeadas e duvidosas que preenchiam os bíceps que estralavam; você viu que ele não tem um dente canino né? ele não tem dente? beijei um homem sem dente? sim, ele não tem o centro-avante, dá uma olhada. O cara realmente não tinha um dos dentes da frente, mas de boca fechada ele era uma maravilha. A maioria dos homens de boca fechada, independentemente da dentição, são uma maravilha. Me lembro dum encontro que tive num café, nesse eu me dispus a ir sem intenção de sexo rápido; estava num período em que meus amigos mais próximos estavam longe e eu precisava conversar. A cada minuto o rapaz soltava um bordão desses de internet; um desespero crescente tomou conta de mim e eu já estava desesperado sem saber como sair daquilo ali. Me lembrei de outra história eternizada na internet, mulher vai ao banheiro e some, e assim o fiz. Não me senti mal; não me senti um pai que sai pra comprar cigarros e some. Se esse é um privilégio masculino, espero continuar me beneficiando dele.
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"Procurem por pares, lembrem-se de Jane Austen. Pares de verdade." Lembrei-me de Machado de Assis em "A mão e a luva".
a favor do ghosting, sim! por que dar satisfação ou querer satisfação de alguém que você nem sequer sabe o sobrenome e, pior, nem sequer tem interesse? vamos nos poupar e aproveitar a delícia da possibilidade do sumiço.