#Bônus. Fruta estranha
Oxalidaceae
recentemente vi alguém dizer por aí, ou por aqui, talvez, que não tem muita paciência pro adulto que finge não entender gírias. por um minuto eu contive o impulso de responder, porque, veja bem, refletir sozinho olhando pra parede branca pode ser mais frutífero que correr e manifestar uma opinião que pode ser recebida com o mesmo desdém que adolescentes oferecem aos adultos que não entendem o que eles falam. a questão não é que alguns de nós adultos não entendemos, até entendemos. bom, eu, pelo menos, entendo se a gíria é posicionada no discurso onde eu poderia substituí-la por qualquer outra palavra conhecida na mesma entonação. algumas gírias atravessam gerações em entonação e cadência; a palavra em si é o acessório menos importante. o que incomoda não é a ignorância lexical, é a encenação de espanto, como se o adulto precisasse provar a todo momento que não pertence àquele mundo jovem, quando na verdade pouca coisa é mais jovem do que se recusar a aprender. isto posto, é perfeitamente compreensível que um adulto que não esteja cronicamente online não saiba o que seja farmar aura. é preciso uma mobilização linguística pra entender que farmar é uma adaptação de farm que, em inglês, como verbo, significa cultivar, especialmente em jogos, em que se farma (cultiva, ou coleta) experiência ou itens, e aura é o conceito místico de energia, de personalidade que evoca o que há de bom e interessante. farmar aura, portanto, é transparecer que você tem borogodó, malemolência, vuco-vuco ou o já aportuguesado jenessequá, e o igualmente jovem o molho. é a arte de parecer legal sem esforço ostensivo, algo que os adolescentes pensam dominar e muitos adultos, traumatizados pela vida, vão perdendo. tankar é outra palavra perfeitamente ridícula do ponto de vista do uso. outra gíria que vem por anglicismo, do inglês to tank, aguentar, resistir, suportar. a origem é também nos jogos de videogame, o personagem tanque é aquele que absorve dano enquanto os outros atacam. essa quem me ensinou foi meu ex-namorado, que tem exatamente a mesma idade que eu, jamais namoraria um homem em idade de videogame, que por sua vez aprendeu com o sobrinho que joga toda e qualquer coisa que apareça em um console, palavra que me faz lembrar da expressão facilmente cancelável nos dias de hoje, consolo de viúva, o famoso dildo, pau de borracha, que a internet adotou de maneira singela no discreto, pequeno, portátil e também anglófono plug. numa tarde qualquer, perguntei a ele se queria dar uma volta na Paulista e ouvi de volta que ele não tankaria aquele sol. levei três segundos a mais para entender sem que pedisse pra ele repetir, porque ele, um homem inteligente, afinal, meu namorado até então, usou na posição que aguentar teria na frase. e foi aí que entendi, ele não estava sendo obscuro, mas me convidando a entrar num código compartilhado. quando adolescente, me recusava conscientemente a participar da comunicação com gírias, porque isso significaria pertencer e, de certa forma, agradar a um grupo, geralmente de meninos héteros que tinham só o tico ou só o teco, ou das meninas, que por sua vez só tinham os meninos na cabeça. não queria estar ali no meio daquele lingo; eu os entendia, absorvia, calculava rota e devolvia de maneira compreensível sem usar o que eles usavam. me comunicar como o Diego, o menino mais descolado da sala, que repetiu a sexta série três vezes e no nono ano já tinha barba cheia e provavelmente um processo de pensão alimentícia a caminho? é ruim, hein. hoje, adulto, vejo que repeti o mesmo gesto, só que invertido: passei anos desdenhando das gírias novas com o mesmo ar de superioridade que os adultos que eu criticava. até que percebi que quem diz que não tanka as gírias da galera de hoje precisa farmar aura, tirar um pouco o plug e deixar que o novo entre. escolho entender o que cabe no meu mundo e rir do resto. deus me dibre de quem não quer aprender nada novo depois de certa idade; essa eu não tanko.
Há um tipo de cansaço que não me comove. Não por frieza, por reconhecer nele a forma ensaiada de um lamento que se quer absoluto, como se a exaustão, por ser materna, merecesse um passe livre contra o espanto alheio. Tenho observado minhas amigas que viraram mães com a mesma curiosidade com que se observa um fenômeno meteorológico previsível: todas falam a mesma língua, publicam os mesmos memes sobre solidão, reclamam da mesma falta de rede de apoio. Constroem uma nova personalidade inteira ao redor de uma criança que ainda não aprendeu a falar. E esperam que a gente escute. O caso de Mariana (obviamente nome e detalhes alterados), minha amiga há 12 anos, porém, é didático. Doutora, concursada, referência acadêmica. Aos trinta e cinco, a maternidade não lhe atravessava o pensamento. Até que apareceu um rapaz dez anos mais novo, bonito como um descuido e vazio de qualquer ambição que envolvesse o dia depois de amanhã. Ela o maternou. Levou-o para morar em seu apartamento. Pagou sozinha a fertilização in vitro. Quando veio a segunda gravidez, acidente, disse ela, como quem tropeça na calçada e cai numa pica, o quadro já estava pintado. A casa virou escombros. Louça, roupa suja, um homem que ajuda como pode. Ela então criou um grupo de mensagens paralelo para reclamar da solidão. E ali, pela segunda vez em três meses, perguntei: é brincadeira isso? O que ela precisava, volto a dizer aqui o que disse ali, não é de um abraço, mas de um divórcio, creche em tempo integral e um bom terapeuta para desaprender a confundir escolha com destino. Mariana me chamou de insensível. Os outros amigos do grupo concordaram comigo, mas com mais suavidade. Ninguém foi insensível. Tudo de ruim na vida de Mariana foi uma escolha ativa e consciente. Ela é o que Amia Srinivasan descreve em The right to sex como a mulher branca no topo da pirâmide, tão dominante quanto um homem branco, que poderia escolher qualquer parceiro e escolheu, deliberadamente, um adolescente hoje com vinte e oito anos desempregado. Mariana viu o Mickey na Disney algumas vezes na infância e na adolescência. Agora ele tem mais tempo para ajudar com as crianças, tá estudando pra concurso. A satisfação dada sem que perguntássemos alguma coisa é de uma tristeza tão burra que quase merece um prêmio. Saí do grupo de mensagens na semana passada, à francesa. Na próxima, tem festa de aniversário de uma das crianças, fui convidado; estarei viajando mesmo se eu resolver ficar em casa. Passei hoje cedo por mais um meme sobre a exaustão materna com a indiferença de quem já entendeu, não sou rede de apoio de quem construiu o próprio abismo e agora reclama da altura. Quem pariu Matheus que o balance. Dilemas da heterossexualidade não me atravessam, que venha o bebê de número três.
Não existe ninguém mais deslocado que um menino de doze anos que finalmente percebeu que ele não quer andar nem com os meninos e nem com as meninas na hora do intervalo e muito menos será acolhido nas aulas de educação física. A falta de destreza jamais será o problema, a exímia coordenação motora será a habilidade responsável por fazer com que ele seja ótimo em patinação, em coreografias de música pop e em qualquer outra atividade física que precise executar sozinho, de preferência em seu quarto. O quarto desse menino é seu santuário e, nele, todo o brilho que precisa ser ofuscado para que sua existência seja minimamente suportável vem à tona; ele pronuncia em voz alta as lições de inglês com perfeição e articulação fonética impecável, da qual seus colegas zombam e a professora, que prefere ficar neutra, apenas agradece pela participação sem o reforço positivo devido; ele sabe dar estrelinha, andar de ponta-cabeça com as palmas da mão no chão, abre espacate melhor que os colegas que fazem ginástica olímpica na escola; o quarto não é grande, mas é.
Numa festa de família, um tio maldoso lhe diz que colheu mais cedo sua fruta favorita, fruta de menina, que quando cortada é uma estrelinha. Ele entende a maldade mas não se ofende, porque corta a fruta em fatias finas e fica maravilhado. Seus pais têm um pé de carambola na calçada que raramente dá frutos, e ele questiona a secura. O pai tenta, e resolvem, tempos depois o pé carregado de estrelinhas atrai vizinhos que se deliciam com baldes carregados. O que ele não sabe é que seu vizinho transplantado corre risco caso dê mesmo que seja uma lambidinha naquela fruta. A família do idoso adverte, se essa fruta entrar aqui em casa, papai morre. O menino descobre pelo seu computador que chia como telefone que carambola é tóxica e pode ser letal a quem tem qualquer problema renal. Caramboxina. Ácido oxálico. Então o transplante foi de rins. E ele passa mais meia hora lendo sobre problemas renais. A empregada da casa dos vizinhos é vista comendo carambolas na calçada e há uma comoção, um escândalo, você quer que meu pai morra? grita uma das filhas, que fora professora de educação física do menino anos antes. Há uma reunião dos moradores e decidem que o pé de estrelinhas precisa ser cortado; o pai do menino protesta, é vencido, e a prefeitura faz a poda numa manhã em que o garoto está na escola se escondendo no gorro do moletom numa aula de ciências. Meses depois, o vizinho idoso e transplantado escorrega na calçada, próximo de onde ficava o pé ceifado, cai ali que nem fruto podre. Morre. O menino não entende a confusão de sentimentos, seu primeiro pensamento é dito sorrindo, poderão novamente plantar fruta ali, e o pai concorda, diz que vai providenciar. Ele comemora dando um mortal pela primeira vez na frente do pai, que aplaude seu pulo e pergunta o que mais ele sabe fazer; ele abre um espacate, se levanta com a mão na cintura, dá uma estrelinha.
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Impossível ler e ficar imune. Ser adulto, ou velho, é uma delícia. A inevitabilidade da descida da montanha te torna mais seletivo, menos influenciável, mais consciente da sua eterna pobreza. Sobre a amiga, muitas amigas minhas adorariam tropeçar na calçada e cair numa pica, o quadro já está côncavo e seco e pede uma ponta, um pinto. Ser mãe de primeira viagem, primeiros seis meses é um horror de Mary Shelley. Saem bichos, monstros dos vãos de portas, brotam em paredes. É o grupo da rede social, que pode cometer genocídio contra as que parem com hora marcada ou não dão o peito, além do grupo inimigo das que exigem uma mesa de cirurgia plástica antes do rebento falar mamae. Há a criança, te tirando da tela, da vida, da produtividade, e a vil descoberta que os 30 kg que você ganhou não vão embora quando te entregam um remelento para carregar no colo e acabar com noites inteiras de sono por, pelo menos, sete anos. A barriga, ah… já na maternidade você verá que ela não some. São, pelo menos 9 messes para o corpo entender e começar a se reconfigurar. Enfim, as gírias. A questão que é pessoal e intransferível pode ter a ver não apenas com o novo, mas com quem você anda. Com o que você consome. E com as escolhas. Sobre ser um adolescente entre mundos, isso é como envelhecer antes do tempo. Tornar-se fruta suculenta quando todo o resto nos galhos ainda é flor. O que te tanka te fortalece.
Que delícia de texto! Um misto de reflexão e boas risadas. Há pelo menos duas ou três passagens que me arrancaram uma gargalhada sincera. Concordo também que a terceira parte daria um ótimo conto. Lembrei de Meu Pé de Laranja Lima, mas agora com o devido karma, além do apelo emocional.