#Bônus. Linhas gerais
Duas inquietações, uma reciclagem.
Algo que me incomoda de maneira intermitente, e para o qual tenho notado uma crescente escassez de paciência, é a forma como meus gostos mais pessoais vêm sendo sistematicamente diminuídos entre meus amigos. E digo, compartilho numa roda de conversa, ou no infame close friends do Instagram, que estou ouvindo certa música, ou que atribuí cinco estrelas a um filme no Letterboxd. Alguém então comenta, com a leveza de quem não antecipa nenhum custo odiei esse filme ou, pior, como você ouve isso? rs. E eu me pergunto qual a intenção, qual o fio de raciocínio ali aplicado. Acreditam mesmo que aos 38 anos depois de ter rodado meio mundo e de ser um consumidor ativo de cultura, eu vá recalcular minha rota porque um amigo declarou que certo Almodóvar é ruim, especialmente quando esse mesmo amigo amou Bohemian Rhapsody, aquela coisa tenebrosa que o Freddie Mercury teve a infelicidade de inspirar como cinebiografia? Veja, acho o filme com Rami Malek francamente tenebroso. E meus comentários sobre ele são gerais. Se um amigo chega feliz, tendo acabado de assisti-lo, dizendo que gostou muito, eu ouço, interajo, faço perguntas. E acrescento, sem estridência embora não tenha gostado tanto, Rocketman, de 2019, com Taron Egerton vivendo Elton John, me parece tecnicamente mais interessante, já assistiu? Porque às vezes o amigo está apenas expressando o gosto dele, sem nenhuma intenção declarada de atacar o meu, e seu léxico é escasso, o que não o isenta da falta de traquejo. Me ocorre que criticar e sugerir algo bom não são atos excludentes, é possível fazer as duas coisas. Talvez a maioria das pessoas simplesmente não tenha essa habilidade social, e novamente, eu não convivo com a maioria das pessoas, não tenho necessariamente que ceder aqui. Isso sou eu, entendo. Mas quero manter proximidade com alguém que não tenha essa habilidade? Talvez eu pense demais sobre como penso e, nesse processo, acabe verbalizando meus limites de maneira defensiva, criando mais distanciamento do que conexão. Segunda hipótese, eu esteja tentando controlar como meus amigos se comportam comigo e algo que aprendi com a vida até agora é que isso é legítimo, embora desgastante. Quando o limite é dado, e o amigo entende, a amizade floresce, as conversas melhoram. Não posso ensinar a nenhum adulto a se comportar, mas a se comportar comigo? ah, isso eu posso.
Por esses dias vi o pôster de Single White Female, um filme de qualidade duvidosa dos anos 90 com Bridget Fonda e Jennifer Jason Leigh. O enredo é basicamente a história de duas mulheres brancas que constroem uma amizade, e uma delas acaba copiando tudo da outra até que o relacionamento parasitário se transforma em psicopatia pura, com muita sensualidade e o noir típico dos thrillers eróticos do cinema americano de trinta anos atrás. Lançado em 1992 e dirigido por Barbet Schroeder, no Brasil, Mulher Solteira Procura é baseado no romance SWF Seeks Same de John Lutz. A trama acompanha Allison, uma programadora de software em Nova York que após terminar o noivado anuncia um quarto em seu apartamento no Upper West Side. A escolhida é a tímida e aparentemente frágil Hedy Carlson. No início, a convivência é harmoniosa; elas se tornam amigas confidentes, compartilham roupas, perfume e gostos. O problema é que Hedy carrega um trauma profundo, sua irmã gêmea morreu afogada quando as duas tinham nove anos, e desde então ela vive em busca da sua outra metade. Quando Allison se reconcilia com o ex-noivo, Hedy se sente rejeitada e a obsessão escala; apaga recados do telefone, mata o cachorro de Allison e, num dos momentos mais memoráveis do filme, copia completamente o visual da amiga inclusive o corte de cabelo e a coloração ruiva. A partir daí, a trama mergulha no suspense explicitamente mais pesado, com Hedy assumindo a identidade de Allison em clubes noturnos, sequestrando a amiga e matando aqueles que ameaçam separá-las. Amizades assim, considerando as devidas proporções, podem ser recorrentes. Quando percebo que um amigo está se transformando em partes de mim, noto inicialmente entusiasmo e alegria; estou influenciando positivamente alguém com meus gostos. Mas a coisa muda de figura quando a cópia deixa o terreno superficial e invade o campo da criação intelectual. Porque, sinceramente, que importa que copiem meu corte de cabelo? Cabelo cresce, corte se refaz, e no fundo é só estética passageira. Uso preto, listrado, perfumes que em mim funcionam, se alguém quer imitar isso, fique à vontade, não me tira o sono. Grandes coisas! Esses objetos são frágeis em profundidade, produtos de prateleira facilmente substituíveis. A minha propriedade intelectual é outra história, não está à venda em loja de departamento; sou eu de verdade: horas de reflexão, rascunhos descartados, intuições madrugada adentro, um jeito único de conectar pontos que ninguém mais conectaria. Por isso, quando sou copiado nessa esfera, quando uma ideia originalmente minha, gestada em silêncio e oferecida de boa fé em uma conversa de parceria ou num momento de fragilidade do outro, aparece meses depois sendo capitalizada por terceiros como se fosse deles, aí não tem almoço grátis. Não se trata de influência ou homenagem, é apropriação, apagamento, não é exagero dizer, roubo. Não quero flores no peito nem estátua na praça, quero ser notificado, ser creditado. Se minha ideia gerou valor, se alguém ganhou dinheiro, visibilidade ou vantagem com algo que nasceu de mim, o mínimo que espero é reconhecimento explícito e a notificação do PIX. Quando, ao invés disso, recebo um block em todas as redes sociais depois de ter ajudado a pessoa num momento de vulnerabilidade, oferecendo ideias e propondo parcerias de trabalho, o que sinto é a mesma vertigem de Allison ao perceber que Hedy não quer apenas usar o mesmo batom, quer ser ela apagando sua existência no processo. Até posso provar que fui copiado, mas existe certo trunfo no meu silêncio e na minha passividade; me deito tendo aprendido que não posso mais amarrar cachorro com linguiça.
Do nada, numa manhã de domingo, meu umbigo começou a coçar como se eu estivesse prestes a parir um alien. Na verdade, aliens não são paridos; se a filmografia que habita o meu imaginário é precisa, eles saem agressivamente dos corpos em que são hospedeiros. E a sensação em meu umbigo era exatamente essa.
O ardor no meu centro de gravidade era alto, quente, vermelho, espraiava-se pela barriga e subia até o peito, fazendo com que meu pescoço temesse a chegada daquela quentura que me invadia. Fui para o chuveiro, imagino que a água seja curativa nesses casos, e ali fiquei por bons minutos sob a ducha gelada que não cessava a quentura. Agora o umbigo latejava. A criatura realmente queria sair, desabitar o meu corpo, e pensei que finalmente meu sofrimento acabaria ali e que talvez fosse capaz, a depender do tamanho daquele parasita, de fazê-lo descer pelo ralo.
De nada adiantou a água gelada.
A febre agora dominava os meus cabelos, as minhas unhas; meu relógio queimava, meus óculos ardiam. Do meu umbigo saía uma linha grossa, um fio de novelo que parecia em queda livre constante na microgravidade. Eu puxava a linha infinita por minutos, por horas. Quando me dei conta, há dez dias puxava de dentro de mim aquela linha. Um mês depois eu ainda a puxava, e nada de criatura alguma sair junto. Comecei a pensar num verme, desses que vemos em notícias de jornais sensacionalistas, que saem de animais, ursos, homens que vivem sem condições sanitárias e que há tempos não habitam a urbanidade. Minha avó provavelmente me enfiaria um lombrigueiro de gosto amargo boca abaixo, chá de mastruz com leite e misturas afins, para que aquela linha-verme finalmente caísse. Mas foi na tesoura da minha caixinha de costura que encontrei a salvação. Cortei o monstro, me desprendi daquele fio grosso que saía de mim sem parar. A pontinha sobressalente que ficou no meu umbigo ainda flutua; amarrei-a em um lacinho simpático antes de enrolar toda aquela trama expelida em um novelo e devolvê-lo ao meu corpo pela garganta.
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