#Bônus. Últimos tangos
Pinos de plástico perdidos em um lavabo.
Desde que me tornei solteiro oficialmente em outubro do ano passado, tive algumas experiências que, quando não muito boas, serviram de aprendizado e, claro, para afinar ainda mais meus critérios sobre quem eu quero que me deite em lençóis macios e me faça sentir como a Madonna se sentiu em Like a Virgin. Em um dos encontros que tive, com um homem em um relacionamento aberto com outro homem, descobri que, do terceiro encontro em diante, eu deveria, caso quisesse continuar transando com ele, transar também com o parceiro. Após ele me mostrar um álbum com doze fotos sem filtro, com zoom e em 4K, fui honesto e disse que não rolaria. Fui questionado. E não há nada que me deixe mais enfurecido do que ter o meu não debatido, ainda mais numa situação dessas. Fui honesto, seu namorado é feio. Não me vejo transando com ele nem se salvar a humanidade dependesse disso. Para meu espanto, ele riu, gargalhou, disse essa é boa, e continuamos amigos online. Venda casada é crime.
Ainda vejo apartamentos para alugar em São Paulo quando chega e-mail de uma imobiliária dessas que não têm sede própria em lugar algum, existem apenas na internet para que o dono não precise pagar porteiro e a moça do café. E num desses e-mails descobri que meu ex-namorado se mudou do apartamento que habitamos durante a pandemia, e que frequentei até o final do ano passado. Foi um susto. As paredes todas pintadas de branco, qualquer branco, de qualquer jeito, sem nenhuma característica humana de nós dois, principalmente dele, ali. A parede cinza borrada que pintou na pandemia depois do vermelho tenebroso que cobria a parede do móvel da TV. A bicicleta pendurada no corredor. Os cacarecos de cozinha espalhados de maneira boêmia, mas meticulosamente limpos, porque esse ex, assim como eu, era mais que asseado. Não dançamos nenhum tango de despedida naquela sala, mas assistimos Robocop, o filme do fim dos anos 80, enquanto ele roncava, competindo com os tiros de metralhadora da película. O bom da internet é que, quando fechamos uma aba, uma dorzinha aparentemente some.
Um outro encontro que tive foi com um homem, segundo seu perfil num app, bissexual ex-gordo. Meus amigos gays xiitas mais próximos me alertaram que eu tinha um grande problema nas mãos, que homem ex-gordo é pior que homem evangélico recém-convertido, ele consegue te convencer de que o ex-gordo é você. Mas eu quis ver por mim mesmo, como vivo fazendo, e dei uma chance, porque, afinal, ele era interessante e bonito. Na segunda vez que ele veio à minha casa, a coisa desandou. Além de ter trazido o seu potinho com ovo cozido e peito de frango desfiado para um jantar que havia sido feito considerando o que ele gostaria de comer, e assim o fiz, perdendo horas da minha tarde marinando uma ponta de peito, ele me abordou saindo do banho pós-coito, vulnerável, exaurido, bochechas vermelhas do vapor quente, pegou na minha barriga com uma pinça de dedos e disse que eu precisaria pegar mais pesado nos exercícios abdominais; ele, que exibia uma cicatriz enorme, porém discreta, de remoção de excesso de pele. Não me sinto confortável em relatar o que retruquei, mas qualquer pessoa que já teve algum embate verbal comigo sabe que, embora eu não erga a voz ou use palavras de baixo calão, consigo deixar traumas. E assim ele saiu do meu apartamento, esquecendo uma meia para trás; branca atoalhada, com um furinho no calcanhar, usada com um sapatênis bege encardido, combinando com uma bermuda jeans na altura do joelho. Fechar abas e certas portas, ser mais xiita.
Me incomoda muito interações de adultos que giram ao redor tão somente de bebidas alcoólicas, não é como se tivéssemos quinze anos, fossemos ferrados de alma e morássemos no Leste Europeu. O adulto que não sabe se divertir sem que haja bebida alcoólica envolvida é um grande alerta vermelho, principalmente se for um interesse amoroso. Embora eu beba álcool, muito pouco, quase nada, me sinto desconfortável em policiar amigos adultos que estão pesando a mão na birita e não terão condições de chegar em casa sóbrios o bastante para saber se fizeram ou não xixi na cama, ou se foi o gato, se transaram, se comeram, se têm ou não trabalho na manhã seguinte. É uma rotina que não cabe na minha vida, e aos poucos venho cortando e evitando os amigos que, aos quarenta, ainda não entenderam que o nosso corpo não aguenta o tranco. Incomoda-me sobremaneira a imagem do escritor bêbado. Até entendo o charme freudiano do cigarro na boca de um homem e, tirando a carniça de alcatrão que impregna o ambiente, desde que eu não seja fumante passivo constante, não me importo. Mas bêbado me irrita profundamente. Um marmanjo desses deitado na calçada com cachorro lambendo a boca? Questionei um amigo pouco antes da pandemia. Uma irresponsável voltando bêbada sozinha num Uber às três da manhã, você não vê jornal? Puxei a orelha de outra. Não quero mais ter essas preocupações e sei que esses amigos não mudarão de comportamento tão cedo. Ando preferindo dormir bem as oito horas de sono sem agir como se fosse pai de adolescente irresponsável. Mas andar com o pessoal da corrida também não é pra tanto, peço que esses também me deixem mais em paz ainda.
É bem possível que minha aversão às drogas e à bebida alcoólica em excesso, na verdade, tudo em excesso me irrita; comer em excesso, gargalhar e berrar em público em excesso, e por aí vai, tenha começado no dia em que B. sofreu uma overdose no meu apartamento. Meses antes, comprei um sofá lindo, recém-reformado em um antiquário por uma pechincha, um sofá de dois lugares, bege-dourado em jacquard com arabescos no mesmo tom. Ninguém o queria porque era difícil de combinar, e isso não seria um problema, meu apartamento vazio poderia começar a ser preenchido por aquele móvel. Era o meu xodó. B. começou a me frequentar semanalmente e, em raras ocasiões, saíamos do apartamento. Não diria propriamente que éramos um casal, transávamos esporadicamente quando ele aparecia, e nada de sua vida eu sabia, além do nome, sobrenome e alguns outros detalhes pessoais que descobri depois de mexer na carteira de documentos enquanto ele tirava um cochilo. B., de tempos em tempo, sumia para o banheiro e voltava alterado. Até que achei um pino vazio no chão do lavabo. Não perguntei se era dele, a não ser que espíritos cheiradores de pó me frequentassem, não teria outra opção. Disse, na minha casa, não. Ele assentiu, mas não durou muito. Começou a vomitar no meu sofá novo e correu para o banheiro, onde caiu e começou a pior noite daquele meu ano. Na prestação de socorro, descobri que, além de morar com os pais, B. ainda estava no armário, e sua mãe estava mais incomodada com o fato de o filho ter sido socorrido de cueca na casa de outro homem do que com o fato dele ter quase morrido de infarto. Um horror. Um caos. Me senti ofendido quando ela me ofereceu dinheiro para que eu não contasse nada a ninguém. Mas, mais rápido que meu próprio pensamento em um dia normal, disse que a limpeza do sofá já estaria de bom tamanho, me poupando quinhentos reais. É de fato um sofá lindo. Quinze anos depois, os arabescos ainda brilham se as cortinas da sala estão abertas e a luz da manhã a invade. Lindo, lindo.
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Quando eu crescer, quero escrever igual a você. Obrigado pelo texto.
também não tenho paciência de gente véa sepassona. eu desaparto logo minha alma e deixo que cada um se vire (amigos homens).
adorei o texto.