#06. Tudo é Rio
Resta saber se o Ganges ou o Tietê.
Quando fechei Tudo É Rio de Carla Madeira, senti uma agonia tão profunda que considerei seriamente mudar brevemente de nome — apenas brevemente, acho Igor um nome muito bonito, fugir para debaixo das cobertas e nunca mais tocar num livro brasileiro contemporâneo nas semanas que se seguiram.
Quem me recomendou essa obra foi uma amiga que eu adoro, mas com o tempo perdi contato; uma pessoa com quem até então eu trocava indicações literárias sem medo de ser feliz. Agora, nas raras vezes em que interagimos, evito falar no assunto livros e afins com ela por medo de deixar escapar que sua sugestão foi o pior romance que eu li até na minha memória recente. Descobri recentemente que ela consome assiduamente o conteúdo do Bookster — então veja bem! Em momentos de recomendações mequetrefes, fico dividido entre a honestidade brutal e o eufemismo covarde; até hoje me pergunto honestamente sobre a possibilidade de bloquear algum autor no Kindle (continua sendo uma pergunta real, quem souber, por favor, me ensine).
Nada sabia sobre a autora até que fui fazer a minha pesquisa. Carla Madeira é uma escritora e roteirista mineira (assim como euzinho), conhecida por trabalhar em novelas da TV Globo, como Império (2014-2015) e A Regra do Jogo (2015-2016). Autora de novelas da TV Globo. Certo, isso esclarece muito, mas não diminui minha crítica ao texto. A autora, em algumas entrevistas (como ao LiteraTreta, 2022), refere-se a escrever cenas ao falar de trechos de seu romance — no entanto, essa escolha de linguagem revela um equívoco conceitual que diz muito. Ficção literária não se faz com cenas, novelas de TV sim. No texto ficcional, quem visualiza a cena, quem a constrói na imaginação, é o leitor, não o autor. O escritor entrega signos linguísticos que ganham vida através da interpretação de quem lê; portanto, quando a autora afirma que escreve cenas, revela uma falha na compreensão do próprio ato de escrever: literatura se faz com texto, não com representações pré-moldadas que se tornam facilmente legendas de fotos no Instagram de mulheres heterossexuais solteiras entre os 30 e 40 anos – eu sei, eu sei, vem sendo uma constante nesta newsletter.
Importante: uma obra-prima literária pode ser mais entediante que assistir tinta secar, enquanto um romance medíocre pode oferecer a experiência deliciosa de leitura enquanto o avião ou ônibus não chegam. Foi assim que li Os Delírios de Consumo de Becky Bloom em 2009; e o casamento perfeito entre grande literatura e prazer de leitura é um unicórnio literário — tão raro quanto encontrar alguém que tenha lido Ulysses do Joyce e se divertido. Porém, o ponto que mais me irritou no romance de Madeira (Tudo É Rio, 2015) é que a autora definitivamente não sabe escrever pobre, e diria que, considerando o seu texto, tem certo fetichismo com a pobreza.
Manoel Carlos, chega aqui.
Cresci sem o hábito de assistir novelas. Minha infância e adolescência foram marcadas por outras prioridades e quando saí de casa aos 17 anos, essa possibilidade se tornou ainda mais distante. Minha rotina era um quebra-cabeça de obrigações: fazia faculdade no período noturno, encaixava disciplinas extras pela manhã e trabalhava seis horas diárias em um curso de inglês no intervalo entre as aulas.
Nesse turbilhão de responsabilidades, mal sobrava tempo para respirar. Enquanto muitos jovens da época se reuniam em frente à TV após o jantar, eu estava entre livros, tarefas e o cansaço do dia. E isso numa era em que os streamings ainda não existiam: não dava para pausar, voltar ou maratonar. Se você perdesse um capítulo, ele simplesmente se perdia na memória alheia. Fico à margem da conversa quando falam de novelas clássicas ou personagens icônicos. Enquanto todo mundo discute os amores proibidos, os vilões que ressuscitam por obra do destino (ou porquice de roteiristas) e os casais que sofrem por 150 capítulos para ficarem juntos no último, eu fico ali, boiando. Adoraria ter o repertório de um verdadeiro noveleiro profissional — aquele que sabe todas as tramas paralelas, os nomes dos atores e até as musiquinhas de abertura de cor, afinal sou um fofoqueiro de marca maior.
No primeiro ano da pandemia, em meio a semanas de tédio e curiosidade, mergulhei em Laços de Família (2000), Por Amor (1997) e História de Amor (1995), novelas clássicas da Globo que, revisitadas, revelam uma representação dos pobres como personagens caricatos, reduzidos a estereótipos do que há de mais vil, abjeto e marginal na sociedade. Essa mesma lógica parece guiar a escrita de Carla Madeira em Tudo É Rio, onde a construção dos personagens pobres ecoa os ideais naturalistas do romance realista do século XIX, especialmente no tratamento do sexo, da violência e do determinismo social.
O naturalismo, encabeçado por autores como Émile Zola (Thérèse Raquin, 1867) e Aluísio Azevedo (O Cortiço, 1890), via o ser humano como produto do meio, da hereditariedade e dos instintos animalescos. A sexualidade, em particular, era retratada como força bruta e degradante, especialmente nas classes baixas, um fatalismo biológico que justificava a miséria e a violência como inerentes aos corpos marginalizados. Em Tudo É Rio, a abordagem dos corpos pobres e sua sexualidade parece herdar essa visão: o desejo é pulsional, a relação afetiva é permeada por traição e dor, e a pobreza é sinônimo de brutalidade.
No século XXI, a literatura já não aceita passivamente que personagens pobres, ou principalmente mulheres pobres, sejam reduzidos a animais guiados por instintos. Autores como Carolina Maria de Jesus (Quarto de Despejo, 1960) e Conceição Evaristo (Ponciá Vicêncio, 2003) mostram a potência e complexidade dessas vozes, sem reducionismos. Jeferson Tenório, em O avesso da pele (2020), também contribui para essa discussão, explorando as nuances da identidade negra periférica e da violência estrutural. Uma escritora branca, dentro dos vários recortes de privilégio que Madeira comunga, ao descrever corpos marginalizados — mesmo que os personagens sejam brancos, dando ênfase ao grotesco, reproduz um olhar colonial, como se a miséria fosse exótica ou pitoresca.
Madeira não está sozinha nessa tradição; a cultura brasileira ainda romanticiza a dor pobre, como fazem novelas e até certa literatura periférica filtrada pelo olhar da elite, muitas vezes a transformando em espetáculo, reforçando dinâmicas de consumo que beneficiam mais o sistema vigente do que os corpos retratados. Como Guy Debord alerta em A Sociedade do Espetáculo (1967), o espetáculo não é um conjunto de imagens (as ditas cenas de seu romance, segundo Madeira), mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens. Quando a miséria e a marginalidade são estetizadas ou reduzidas ao grotesco, reproduz-se uma lógica dominadora de voyeurismo, onde a dor alheia vira entretenimento, e o verdadeiro beneficiário é a indústria cultural, que lucra com a exploração dessas narrativas, esvaziando sua potência política — Madeira é possivelmente a autora brasileira mais vendida da década de 2020. Eu ignoraria facilmente seu romance se fosse apenas ruim e não tivesse ultrapassado as 200 mil cópias; e aparentemente a maioria desses leitores gostou da obra.
Outro problema é que sua obra não se limita à mediocridade; ela apresenta fissuras ideológicas que a tornam vazia como fragmento social ou artístico. Falha como denúncia e não oferece nenhuma representação significativa da sociedade que pretende retratar, reduzindo personagens marginalizados a caricaturas que reforçam estereótipos em vez de subvertê-los. O naturalismo do século XIX servia para chocar a burguesia; hoje, além das divisões de classes terem mais áreas cinzas que nos 1800, esse tipo de texto sem crítica estrutural pode ocasionalmente reforçar o que finge denunciar.
Os supridores
No começo de 2024, tive o prazer de conhecer José Falero e mergulhar em Os Supridores, um romance que me impactou profundamente. Imediatamente, indiquei o livro aos meus melhores amigos, e as discussões que surgiram foram tão intensas quanto a narrativa em si e sem medo de recorrer ao superlativo, afirmo: é possivelmente um dos melhores romances que li na última década.
Com Os Supridores, seu primeiro romance, José Falero não apenas demonstra um domínio excepcional ao retratar a pobreza sem caricaturas, mas também constrói um universo literário único, marcado por uma linguagem que oscila entre o culto e o coloquial, sem jamais perder sua força filosófica. Falero constrói uma narrativa que é ao mesmo tempo um retrato social incisivo e uma história de amizade, revolta e escolhas impossíveis. O romance não apenas denuncia as engrenagens da desigualdade, mas também celebra a linguagem da periferia como ferramenta de poder e subversão, ja que você precisa ler na linguagem dos personagens, que não é necessariamente a mesma do leitor que pode pagar oitenta reais num romance da Todavia para consumir a história que Falero nos conta. Essa é justamente a genialidade subversiva do autor: ele não traduz, não explica, não facilita. Nos obriga a adentrar um universo linguístico que desafia nosso conforto de classe, expondo o abismo entre quem narra e quem consome narrativas.
Apesar de conhecerem o tráfico que domina sua comunidade, Pedro e Marques tentam se manter na legalidade. No entanto, quando uma seca de maconha atinge o mercado local e a exploração do trabalho assalariado se torna insuportável, os dois veem no crime a única saída para uma vida menos miserável. Sua decisão não é apenas uma tentativa de ascensão social, é um ato de resistência contra a desumanização do trabalho precarizado e contra todo um sistema que os esmaga. A todo momento, seja através dos personagens ou do narrador, Falero é narrativamente responsável, ao contrario de Carla Madeira, por localizar o cerne dos problemas que movimentam a trama no sistema, no grande outro, e não nos homens pobres que fazem parte dele.
A cachorra e uma conclusão fofinha.
Outra autora que domina a arte de esculpir a pobreza sem folclorização é Pilar Quintana. Em A Cachorra (2020), a colombiana tece um romance tão úmido como a geografia selvagem do Pacífico colombiano onde a história se passa, e que nos engole num só fôlego. A narrativa acompanha Damaris, uma caseira cujo vazio existencial se entranha nos cuidados com Xirli, a cadela que substitui o filho que nunca teve.
Quintana transforma a simplicidade aparente do enredo, uma mulher, um cachorro, uma cabana à beira-mar, em tratado sobre maternidades falhadas e afetos deslocados. Seu estilo seco como terra rachada, expõe sem piedade como os desejos mais íntimos se deformam quando esbarram na realidade econômica.
Aqui, a maternidade canina não é mero escapismo, mas espelho distorcido de um mundo onde até os afetos seguem lógicas de escassez (entre mães de pets e mães de bonecos reborn, há todo um oceano de solidões não ditas). O brilhantismo de Quintana está em nos fazer enxergar, no vínculo entre Damaris e Xirli, toda uma geopolítica do cuidado e do abandono.
A literatura que coloca a pobreza no centro oscila entre a reprodução de um olhar colonizador — que espetaculariza a miséria como destino inescapável, e a emergência de vozes que subvertem o naturalismo, transformando a margem em centro narrativo. Enquanto alguns romances perpetuam a lógica do determinismo social, outros deslocam o fardo da culpa dos corpos pobres para as estruturas que os oprimem. Se de um lado temos Tudo É Rio, na margem de lá temos Quarto de despejo, Ponciá Vicêncio, O avesso da pele, Os supridores e A cachorra. Vale lembrar, como afirmou a camarada Mariah Carey em entrevista à Vulture (2020): somos socializados a acreditar que nossa pobreza é resultado de nossas escolhas, e não de falhas sistêmicas, e a arte, independentemente da mídia, não pode reforçar essas falhas ao invés de denunciá-las
Vale esclarecer que minha resenha não critica a qualidade técnica da escrita de Carla Madeira; uma análise mais aprofundada exigiria citações textuais e uma releitura do romance, algo que por questões de tempo, meio, e boa vontade não farei. Minha discussão é outra: questiono o que é contado, como é contado e, sobretudo, quem se beneficia desse tipo de representação. O grande desafio literário é o que mais critico na literatura como a feita por Madeira: escrever sobre a fome sem devorar o faminto ou narrar a queda sem fetichizar o abismo. Nesse espectro, a boa literatura não se define apenas pela habilidade descritiva, mas pelo reconhecimento de um corpo que viveu e sobreviveu; um corpo que ao reescrever sua própria história a transforma na história de quem o cerca.


Eu li esse livro duvidando de mim do começo ao fim. Afinal, se todos gostam tanto, e eu só ficava perplexa, eu estou errada, certo? Algumas partes da escrita e a forma de descrever eram até intrigantes, mas o final? O que foi isso? Tudo bem que todos temos nossa dose de culpa cristã BR, mas isso foi a garrafa toda, se fosse só a dose tava é bom. Obrigada por esse texto, me sentindo menos "leitora ruim”.
Gostei do “tudo é rio” na época em que li. Esta é a segunda crítica negativa que leio do livro em duas semanas e que fizeram eu voltar ao livro, pois ambas foram bem contundentes nos argumentos. Mas me dei conta de que mal lembro da história, ou seja….. de fato, não acrescentou nada, não me trouxe um novo olhar sobre algo além da própria espetacularização da pobreza. Talvez tenha sido de fato um entretenimento que funcionou quando li. Já “a cachorra”, eu lembro de pormenores de tanto que o livro me tocou. Agora vou correr atrás de “os supridores”.